Durante décadas, o varejo de saúde operou com uma lógica simples: o paciente chega com sintoma, o estabelecimento entrega o medicamento, a venda acontece. Essa lógica ainda existe. Mas ela não é mais a única lógica de consumo que o balcão precisa atender.
Um movimento silencioso e consistente está redesenhando a demanda no varejo de saúde brasileiro: o consumidor que vai ao estabelecimento não para tratar uma doença, mas para não adoecer. Ele busca suplementos, vitaminas, probióticos, colágenos, adaptógenos, produtos de sono, de imunidade e de performance cognitiva. Ele leu sobre isso em algum canal digital, ouviu de alguém de confiança ou foi orientado por um profissional de saúde em uma abordagem de prevenção.
Wellness, no contexto do varejo de saúde, é a categoria de produtos e serviços orientados à manutenção ativa da saúde, à prevenção de doenças e à otimização do bem-estar físico e mental, sem necessidade de prescrição médica na maioria dos casos. Essa categoria cresceu mais de 30% ao ano no Brasil nos últimos três anos e ainda está subexplorada na maioria dos estabelecimentos de saúde independentes.
Para o gestor que entende essa mudança antes da concorrência, a saúde preventiva não é uma tendência de comportamento. É uma nova fonte de receita com margem superior à média do varejo convencional de medicamentos.
O que é o mercado de wellness e por que ele está crescendo no varejo de saúde
O mercado de wellness é o conjunto de produtos, serviços e comportamentos orientados à saúde proativa — aquela que o consumidor gerencia de forma autônoma, sem esperar o diagnóstico médico para agir. Inclui suplementos vitamínicos e minerais, proteínas e aminoácidos, probióticos e prebióticos, adaptógenos, colágenos, produtos de saúde do sono, itens de higiene funcional e uma crescente linha de produtos de saúde mental e performance cognitiva.
O crescimento desse mercado no Brasil tem três motores principais que o tornam estruturalmente sustentável, e não uma moda passageira:
- Envelhecimento ativo da população: a geração que chegou à meia-idade nas décadas de 1990 e 2000 tem uma relação diferente com saúde do que as gerações anteriores. Ela não aceita passivamente o processo de envelhecimento e investe ativamente em prevenção, suplementação e qualidade de vida. Esse público tem renda disponível, tem acesso à informação e tem disposição para pagar por produtos que sustentam esse estilo de vida.
- Influência digital de profissionais de saúde: médicos, nutricionistas, farmacêuticos e educadores físicos com presença nas redes sociais criaram um fluxo constante de recomendações de produtos preventivos para audiências de milhões de pessoas. Quando um nutricionista com 500 mil seguidores recomenda um probiótico específico, a demanda por aquele produto em estabelecimentos de saúde locais sobe na semana seguinte. Esse fenômeno é recente, consistente e crescente.
- Pandemia como acelerador de consciência de saúde: o período de 2020 a 2022 gerou uma mudança permanente na percepção de risco de saúde em uma grande parcela da população brasileira. O aumento no consumo de vitamina C, D, zinco e suplementos imunológicos nesse período não reverteu completamente depois. Uma parte significativa do consumidor que começou a suplementar por medo manteve o hábito por percepção de benefício.
Por que o balcão convencional ainda não captura essa demanda

A maioria dos estabelecimentos de saúde independentes tem produtos de wellness no estoque. O problema é que eles estão no estoque, não na estratégia. A diferença entre ter e explorar essa categoria é enorme e se manifesta em quatro lacunas operacionais que custam receita todos os dias.
Lacuna 1: mix mal curado. O estabelecimento tem o colágeno básico e a vitamina C de sempre, mas não tem o colágeno com vitamina C e ácido hialurônico que o influenciador de nutrição recomendou no mês passado. Não tem o probiótico de múltiplas cepas que os profissionais de saúde da região estão prescrevendo. Não tem o magnésio bisglicinato que o paciente pergunta toda semana e vai buscar em outro lugar quando não encontra. O mix de wellness precisa ser atualizado com a frequência do mercado digital, não com a frequência do pedido mensal convencional.
Lacuna 2: equipe sem conhecimento de produto. Um atendente que não sabe a diferença entre colágeno hidrolisado e colágeno tipo II não consegue orientar o cliente que chegou com uma dúvida. E o cliente de wellness, ao contrário do cliente que compra por prescrição, tem dúvida. Ele quer entender o que está comprando. Quando não encontra orientação qualificada no estabelecimento, ele vai buscar no digital, onde pode encontrar a resposta de qualquer concorrente que tenha canal de conteúdo.
Lacuna 3: ausência de narrativa de venda. Um medicamento prescrito não precisa de argumento de venda: o paciente já sabe que precisa e vai comprar. Um suplemento de saúde preventiva precisa de contexto. O atendente precisa conseguir conectar o produto à rotina e à necessidade específica do cliente para que a compra aconteça. Sem essa habilidade, o estabelecimento tem o produto na prateleira mas não o vende para quem poderia estar comprando.
Lacuna 4: exposição e comunicação interna fraca. Produtos de wellness com margem superior à média ficam em prateleiras secundárias, sem comunicação visual, sem destaque e sem conexão com o percurso natural do cliente dentro do estabelecimento. A exposição estratégica de produtos de alta margem é uma alavanca de receita que não exige nenhum investimento em mídia, apenas decisão sobre onde colocar o produto e como comunicá-lo dentro do ponto de venda.
Como tratamos no artigo Por que o encarte ainda é a peça de marketing com maior retorno no varejo farmacêutico local, a comunicação de produto dentro e fora do ponto de venda é o que ativa a demanda latente que já existe na base de clientes. Wellness é exatamente o tipo de categoria onde essa comunicação multiplica o resultado.
As categorias de wellness com maior potencial de receita no balcão em 2025
Nem toda categoria de wellness tem o mesmo potencial de margem, de giro e de adequação ao perfil de um estabelecimento de saúde local. As categorias abaixo têm a combinação mais favorável de demanda crescente, margem superior à média e baixa complexidade regulatória para comercialização.
Suplementos de imunidade e microbiota
Vitamina D3, vitamina C lipossomal, zinco bisglicinato, magnésio e probióticos de múltiplas cepas são produtos com demanda estabelecida, prescrição frequente por profissionais de saúde e crescimento consistente de venda em estabelecimentos que têm mix atualizado e equipe capaz de orientar. A margem desses produtos fica entre 35% e 60% sobre o custo, significativamente acima da média de medicamentos de referência.
Colágeno e saúde articular
O mercado brasileiro de colágeno cresceu mais de 40% entre 2022 e 2024, impulsionado pela recomendação massiva de profissionais de saúde nas redes sociais. Colágeno hidrolisado, colágeno tipo II, colágeno com vitamina C e as versões em cápsulas, sachês e bebidas prontas são categorias com alto giro, alta margem e público bem definido: mulheres entre 35 e 60 anos com consciência de saúde preventiva, que compram todo mês e têm baixa sensibilidade a preço quando percebem resultado.
Saúde do sono e manejo do estresse
Melatonina, extrato de passiflora, ashwagandha, l-teanina e complexos de magnésio para relaxamento são produtos que responderam a uma demanda que a pandemia acelerou e que não diminuiu depois. O distúrbio de sono afeta mais de 70% da população adulta brasileira. Esse dado é uma oportunidade de receita recorrente para o estabelecimento que tiver o produto certo, o atendente que saiba orientar e a comunicação que conecte o produto ao problema que o cliente já reconhece como seu.
Performance cognitiva e energia
Ômega-3 de alta concentração, complexo B, ginkgo biloba, coenzima Q10 e produtos de nootrópicos naturais são categorias em crescimento acelerado, especialmente entre o público de 30 a 50 anos com alto nível de exigência sobre performance intelectual e física. São produtos com ticket médio elevado, margem superior e cliente com disposição de compra recorrente quando percebe resultado.
Dermocosméticos funcionais
Filtros solares com ativos antioxidantes, séruns com retinol e niacinamida, hidratantes com peptídeos e produtos de skincare com claims de prevenção de envelhecimento são categorias que migraram da farmácia de manipulação e das lojas especializadas para o varejo de saúde convencional. A margem é consistentemente superior à de medicamentos, o cliente retorna com regularidade e o estabelecimento que tiver equipe capaz de fazer recomendações técnicas tem vantagem real sobre o concorrente que apenas expõe o produto.
Como calcular o potencial de receita de wellness para a sua operação
Antes de decidir quais categorias priorizar e qual investimento em mix faz sentido, o gestor precisa de uma estimativa do potencial de receita adicional que a categoria pode gerar. O cálculo é simples e pode ser feito com três perguntas sobre a operação atual.
Pergunta 1: qual é o volume de clientes ativos que a operação atende mensalmente?
Um estabelecimento com 400 clientes ativos mensais tem, nesse universo, uma proporção previsível de pessoas com perfil de consumidor de wellness: em média, entre 25% e 35% da base adulta acima de 30 anos já consome ou consideraria consumir algum produto de saúde preventiva. Isso representa entre 100 e 140 clientes potenciais para a categoria, dentro da base que já compra no estabelecimento.
Pergunta 2: qual é o ticket médio esperado de uma compra de wellness?
Um cliente que compra um suplemento de colágeno, uma vitamina D e um probiótico na mesma visita tem ticket médio entre R$ 120 e R$ 220, dependendo das marcas disponíveis e da orientação recebida no atendimento. Esse ticket é consistentemente superior ao ticket médio de uma compra de medicamento genérico de uso contínuo.
Pergunta 3: qual é a frequência de recompra esperada?
Clientes de wellness que percebem resultado compram com frequência mensal. Um cliente de colágeno e vitamina D que está satisfeito com os produtos volta todo mês sem precisar ser conquistado novamente. A recorrência dessa categoria é estruturalmente semelhante à recorrência de medicamento de uso contínuo, com a diferença de que a margem por venda é significativamente maior.
Combinando os três números: 120 clientes potenciais, ticket médio de R$ 150 e frequência mensal, o potencial de receita adicional de wellness para um estabelecimento médio é de R$ 18.000 mensais — receita que hoje está indo para outro canal ou para outro estabelecimento que já tem o mix e a orientação que esse cliente busca.
O papel do farmacêutico na captura da demanda de wellness
O farmacêutico é o profissional mais bem posicionado no varejo de saúde para orientar o consumidor de wellness. Ele tem formação técnica para entender interações entre suplementos e medicamentos, tem autoridade percebida pelo paciente para fazer recomendações de saúde e tem acesso ao histórico de compras do cliente para personalizar a orientação.
Essa posição privilegiada, no entanto, só gera resultado quando o farmacêutico está preparado para operar fora do repertório clínico convencional. A maioria dos cursos de farmácia dedica pouco tempo à suplementação preventiva, aos adaptógenos e aos nutraceuticos. O farmacêutico que se atualiza nessa área, que acompanha as evidências científicas mais recentes e que consegue conversar com o paciente sobre saúde preventiva de forma técnica e acessível, transforma o estabelecimento em um destino de orientação de saúde, não apenas de dispensação de medicamentos.
O farmacêutico que orienta sobre wellness não está ultrapassando seu escopo de atuação. Está usando seu escopo de atuação em uma área que o mercado demanda e que o estabelecimento ainda não atende com a profundidade que poderia
Como discutimos no artigo A Nova Era do Atendimento nas Farmácias: Como Atendentes Especialistas Aumentam o Ticket Médio com Dados, Ética e Precisão, o atendimento especializado é o diferencial competitivo que nenhuma rede consegue replicar com a mesma autenticidade de um estabelecimento local com farmacêutico presente e preparado.
Como comunicar wellness sem infringir a regulação sanitária
Um dos principais freios que impede gestores de explorar wellness com mais intensidade é o receio de infringir a RDC 96/2008 da Anvisa e as diretrizes do Conselho Federal de Farmácia. O receio é legítimo, mas frequentemente superestimado.
A regulação restringe promessas terapêuticas: afirmar que um produto cura, trata ou previne uma doença específica sem embasamento regulatório aprovado. Ela não restringe a comunicação de categorias funcionais, de benefícios gerais de saúde ou de orientação educativa sobre hábitos preventivos.
Na prática, a diferença entre o que é permitido e o que não é pode ser ilustrada assim:
- Não permitido: “Este probiótico previne infecções intestinais” — promessa terapêutica específica sem embasamento regulatório aprovado para aquele produto.
- Permitido: “Probióticos contribuem para o equilíbrio da microbiota intestinal” — benefício funcional reconhecido pela regulação para a categoria.
- Não permitido: “Esta vitamina D cura deficiência imunológica” — promessa de tratamento de condição clínica.
- Permitido: “A vitamina D contribui para a função imune normal” — alegação funcional aprovada pela Anvisa para suplementos vitamínicos.
Comunicar wellness dentro da regulação não exige abandono da persuasão. Exige precisão de linguagem. E essa precisão, quando dominada pela equipe, transforma a comunicação em um diferencial de credibilidade, porque demonstra que o estabelecimento conhece profundamente o que vende e respeita a inteligência do paciente.
Wellness como estratégia de fidelização, não apenas de venda pontual

O consumidor de wellness tem um perfil de comportamento de compra que o torna especialmente valioso do ponto de vista da fidelização: ele compra regularmente, ele é fiel a produtos que funcionam para ele e ele tem alto nível de confiança no profissional ou no estabelecimento que o orientou para aquela escolha.
Isso significa que capturar um cliente de wellness não é apenas uma venda adicional. É o início de um relacionamento de compra recorrente que, se bem cuidado, pode durar anos. Um cliente que compra colágeno, ômega-3 e probiótico todo mês representa entre R$ 150 e R$ 300 em receita mensal adicional, com margem superior à média e sem precisar de nenhum investimento de mídia para manter a recorrência.
A lógica de fidelização do cliente de wellness é diferente da do cliente de medicamento. O cliente de medicamento volta porque precisa. O cliente de wellness volta porque confia. E confiança é construída por orientação qualificada, por consistência de mix e por uma experiência de compra que vai além da transação.
Como aprofundamos no artigo De comprador ocasional a cliente recorrente: o que determina se alguém volta a comprar na sua farmácia, os momentos críticos que determinam a recorrência se aplicam ao cliente de wellness com ainda mais intensidade, porque a fidelidade desse cliente é construída sobre uma percepção de valor percebido que o estabelecimento precisa sustentar a cada contato.
Perguntas frequentes sobre wellness no varejo de saúde
O que são produtos de wellness no contexto do varejo de saúde?
Produtos de wellness no varejo de saúde são suplementos alimentares, vitaminas, minerais, probióticos, fitoterápicos, dermocosméticos funcionais e outros itens orientados à manutenção proativa da saúde, à prevenção de doenças e ao bem-estar geral, comercializados sem necessidade de prescrição médica na maioria dos casos. Diferem dos medicamentos por não terem indicação terapêutica para tratamento de doenças específicas e por serem consumidos de forma autônoma pelo paciente.
Wellness é uma tendência passageira ou um movimento estrutural no varejo de saúde?
Wellness é um movimento estrutural sustentado por três fatores de longo prazo: envelhecimento ativo da população, acesso crescente à informação de saúde preventiva e mudança permanente na percepção de risco de saúde gerada pela pandemia. O mercado global de wellness ultrapassou US$ 5 trilhões em 2023 e cresce a taxas superiores ao PIB na maioria dos países, incluindo o Brasil. Não é moda. É uma mudança de comportamento de consumo com base demográfica e cultural sólida.
Qual é a margem de produtos de wellness comparada à de medicamentos convencionais?
A margem de produtos de wellness no varejo de saúde é consistentemente superior à de medicamentos genéricos e similar. Enquanto medicamentos genéricos têm margem média entre 15% e 25%, suplementos e produtos de saúde preventiva têm margem entre 35% e 65%, dependendo da categoria, da marca e da negociação com o distribuidor. Essa diferença de margem, combinada com a recorrência de compra típica do consumidor de wellness, torna a categoria significativamente mais rentável por cliente ao longo do tempo.
Como um estabelecimento de saúde local começa a explorar wellness sem grande investimento?
O ponto de entrada mais eficiente é auditar o mix atual e identificar as subcategorias de wellness com maior demanda não atendida na base de clientes existente. As três primeiras ações concretas são: atualizar o mix com as marcas e apresentações mais recomendadas pelos profissionais de saúde da região, treinar a equipe nas principais categorias de wellness para que o atendimento seja orientativo e não apenas transacional, e comunicar a existência dessas categorias para a base de clientes via WhatsApp e encarte semanal. Sem nenhum investimento em mídia paga, essas três ações já geram resultado nas primeiras semanas.
O paciente que entra no estabelecimento perguntando sobre colágeno, vitamina D ou probiótico não está buscando um medicamento. Está buscando um aliado de saúde. E o estabelecimento que responde a essa busca com conhecimento, com mix atualizado e com orientação qualificada não está apenas fazendo uma venda. Está capturando um cliente recorrente de alta margem que, na ausência dessa resposta, vai encontrá-la em outro lugar, em outro canal, com outro concorrente que entendeu antes que saúde preventiva não é uma tendência do futuro. É a demanda de hoje, acontecendo no balcão, toda semana, esperando por um gestor que decida atendê-la com estratégia.




